Foto: National Cancer Institute / Unsplash
Carreira · Marca Médica
O médico como marca: o que o mercado já decidiu sem perguntar
Existe uma categoria de médicos que começou a aparecer com frequência diferente nas conversas de ambulatório e nos grupos profissionais de WhatsApp. Eles não são necessariamente os mais experientes da turma. Não publicam mais em periódicos indexados do que os colegas. Mas têm algo que os outros não têm: agenda cheia, tarifas próprias e uma base de pacientes que os procura ativamente, em vez de aceitar quem o plano indica.
O que esses médicos fizeram de diferente não foi virar influencer. Foi construir uma percepção clara do que fazem e para quem fazem, e tornar essa percepção acessível antes de o paciente precisar deles. É uma distinção sutil, mas que separa dois mundos profissionais completamente distintos.
A discussão ganhou novo fôlego com um mapeamento recente de médicos que deixaram de depender do sistema de convênios e construíram práticas particulares sustentáveis, não pelo volume de consultas, mas pelo posicionamento que permite cobrar mais por menos. O padrão entre eles é consistente: presença digital clara num tema específico, conteúdo regular em ao menos um canal e um processo de indicação que funciona sem eles precisarem estar na sala.
O que os dados de mercado confirmam é igualmente claro. O poder de compra de um médico que sai da residência hoje é uma fração do que era para a geração anterior. Não porque a medicina perdeu prestígio, mas porque o sistema foi desenhado para absorver médicos, não para remunerar médicos. Absorver significa dar ocupação. Remunerar significa reconhecer valor. Quem não aprende a diferença fica preso na primeira categoria.
O ponto que a maior parte dos debates sobre marca médica ignora é que isso não exige talento especial para comunicação. Exige clareza sobre qual problema você resolve bem, o suficiente para que alguém, ao descrever seus sintomas para um amigo, ouça como resposta o seu nome. Essa clareza é construída, não inata. E aqui eu reconheço que estou sendo parcial: a maior parte das faculdades de medicina brasileiras ainda não ensina nenhum mecanismo para desenvolvê-la. O currículo prevê seis anos de formação técnica e zero horas de formação sobre como esse técnico vai se posicionar no mercado que vai recebê-lo.
"O sistema foi desenhado para absorver médicos, não para remunerar médicos. Quem aprende a diferença constrói uma prática. Quem não aprende compete por plantão."
|